O patrimônio x a desmaterialização dos sistemas informáticos

Nosso tempo é de crescentes e velozes mudanças. Transformações que demoravam gerações ou décadas ocorrem em poucos meses ou dias. Graças às novas tecnologias e mídias, as informações e os conteúdos circulam instantaneamente. Cada vez mais a economia e a política se entrelaçam e se tornam globalizadas, onde fatos e decisões que nos afetam ocorrem a milhares de quilômetros. A cultura faz parte desse processo de globalização e tende a perder, como a economia, suas características nacionais, regionais e locais, se as manifestações autênticas e genuínas não forem protegidas e incentivadas.

Mas afinal, a tecnologia e seus suportes podem potencializar a conservação? Ou a tecnologia e mídias digitais graças à estética de desaparecimento e a reprodutibilidade técnica prejudicam, de alguma forma, os processos de conservação do patrimônio?

A conservação patrimonial através dos sistemas informáticos como a Web ainda é um campo aberto à exploração. As alterações que as técnicas digitais estabelecem, tal qual a capacidade de medir o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, o espaço descontínuo e heterogêneo, o pixel como elemento básico da imagem eletrônica e a impermanência desta imagem proporcionam um alto grau de liberdade da exploração do imaginário.  Tais mudanças foram grandes revoluções cientificas que vieram acompanhadas de hipóteses sobre seu impacto na produção e preservação cultural.  Hipóteses como o congelamento de tradições e culturas em universos virtuais ou da desmaterialização do patrimônio (antimonumentos) são algumas das visões pessimistas sobre influencia da tecnologia.

Para analisarmos o impacto da tecnologia nas questões patrimoniais podemos pensar no patrimônio como uma obra de arte, a qual o filósofo alemão, Benjamin, expõe que devemos analisar três valores: o de culto, o de exposição e o de eternidade. Analisando o impacto da tecnologia nestes valores temos a manutenção do valor de culto, potencialização do valor de exposição e renuncia do valor de eternidade. O valor de culto se mantem, pois o atrativo e o êxtase da contemplação devido às sensações ou simulação de sensações permanecem, porém não em mesmo grau. Já o valor de exposição é potencializado, pois devido às mídias e a reprodutibilidade técnica a difusão imagética torna-se intensa e veloz. Contudo, o valor de eternidade é “renunciado” devido à impermanencia da imagem na qual a imagem é somente retiniana e não mais associada a um suporte físico e sofre constantes modificações.

A partir de tal análise temos que a difusão da conservação do patrimônio pelos meios informáticos é positiivo uma vez que sua exposição é potencializada e o valor de eternidade não desaparece com sua reprodutibilidade. Assim como, por exemplo, a arquitetura necessita de sua fruição física, o valor de culto se mantem nos sistemas informáticos porém não sendo capaz de proporcionar as mesmas sensações que o contato com bem físico. Sendo assim apesar de ser reproduzido e disseminado em alguma mídia isto não interfere na curiosidade em conhecer o patrimônio em si, fisicamente. Pelo contrário, é cada vez mais comum os museus disponibilizarem em seus sites tours interativos, mas que de modo algum substituem o contato real com as obras expostas.


Bibliografia:
Artigo - “Os monunmentos e a sua reprodutibilidade: mídias e valores” ; Eliane Lordello e Norma Lacerda; publicado na revista Risco
Artigo - “O desejo da desmaterialização da arquitetura: a plasticidade como pocesso”; Marcela Alves de Almeida; publicado na revista Risco

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