Mas, afinal, o que é Patrimônio?

  Talvez a melhor definição de Patrimônio seja compreender o que ele não é. O Patrimônio não é apenas um conjunto de edificações, cujas características, um dia, foram determinantes para identificar a história de um povo. Patrimônio não se refere apenas a um conjunto de bens antigos ou aqueles com características semelhantes, mas ao conjunto da cidade, aos espaços e interstícios urbanos que, somados aos edifícios de valor histórico, são portadores de memória. Patrimônio refere-se às práticas sociais e a formação dos espaços públicos, ao cotidiano, uso e fruição da cidade, a partir das relações de identidade e pertencimento.
O conceito de Patrimônio está intrinsecamente ligado aos bens culturais, sejam eles materiais ou imateriais. Sendo assim, na medida em que a cultura é dinâmica e mutante, o conceito de patrimônio também o será. Torna-se difícil então estabelecer fronteiras para o que é permanentemente concebido, criado, recriado e ampliado. Assim como o conceito de cultura, o conceito de patrimônio é um conceito aberto, decorrente de longo processo acumulativo, que se modificou historicamente de acordo com as construções ideológicas de cada época. No entanto, a abrangência  de tais conceitos de forma alguma quer dizer que todo bem cultural deve ser patrimonializado ou protegido. O reconhecimento de um bem ou manifestação cultural por parte do Estado é feito com base em critérios, que, por mais objetivos e democráticos que sejam, sempre serão passiveis de subjetividade e discricionariedade.


Referências Bibliográficas
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.123/3534

78 anos de IPHAN

Neste ano de 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, celebra 78 anos de sua criação. Uma das mais longevas instituições públicas brasileiras e a primeira dedicada à preservação do patrimônio cultural na América Latina, o IPHAN tem uma trajetória que se confunde com a formação cultural do Brasil. Seu trabalho – compartilhado por uma sociedade complexa e em veloz transformação – além de preservar, salvaguardar e acautelar bens e manifestações culturais da nossa gente, é aquilo que não percebemos, ou melhor, que sentimos como inato: colaborar para a constituição das diferentes identidades que compõem a diversidade cultural do País, do nosso sentido de nação, do que é ser brasileiro.
Enfrentamos hoje, como outros já o fizeram no passado, o desafio da politização. Seja no âmbito da cidadania – no sentido de ampliar a participação social e de assegurar voz e oportunidade de manifestação e ação a grupos marginalizados pela impossibilidade de acesso aos meios institucionais e midiáticos, ou por não partilharem da conceituação cultural dominante – seja no sentido de democratização de política pública, integrada às demais políticas reivindicadas pela sociedade, e não mais por ações isoladas ou desconectadas do tecido econômico e social.



Referências Bibliograficas:
Artigo - “Os monumentos e a sua reprodutibilidade: mídias e valores” ; Eliane Lordello e Norma Lacerda; publicado na revista Risco
Artigo - “O desejo da desmaterialização da arquitetura: a plasticidade como processo”; Marcela Alves de Almeida; publicado na revista Risco

IPHAN-RJ lança Portal do Patrimônio: aplicativo para celular e tablet.


Nos dias atuais, é cada vez maior a preocupação com a conservação e a preservação do patrimônio histórico e cultural de uma sociedade. As dimensões e as características que definem o nosso tempo e espaço geram discussões constantes sobre o que, como e para quem preservar. Muitos dos nossos patrimônios não são conhecidos pela população brasileira por falta de informação. Com isso, a Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ) criou um aplicativo para celulares e tablets onde mostra os patrimônios tombados ou registrados no Rio de Janeiro: o Portal do Patrimônio. O programa está proposto através de plataforma colaborativa, permitindo acesso e pesquisa não apenas aos bens protegidos pelo Iphan, que representam o Patrimônio Cultural do país, mas também outros preservados por leis estaduais e municipais.


Segundo o superintendente do IPHAN no Rio, Ivo Barreto, a novidade dá visibilidade a outras atrações, saindo do lugar-comum. “Em São Pedro D’Aldeia, temos a Casa da Flor, um dos bens mais encantadores do Brasil, da resistência negra, assim como na capital temos o Cais do Valongo. Turistas chegam ao Rio e conhecem o Corcovado, o Pão de Açúcar, também tombados, mas não conhecem as outras atrações. É uma aproximação da sociedade com esses bens.” – observa Ivo, de 35 anos.
Se tratando de uma rede participativa, a cada dia novos bens poderão ser acrescentados e disponibilizados por seus gestores, sejam eles edificados ou exemplares do patrimônio imaterial, na medida em que sejam protegidos pelo instrumento do tombamento municipal, ou similar, fazendo desse aplicativo um meio dinâmico e sempre crescente. 
Usando a navegação por GPS, a pessoa tem acesso aos bens culturais que estão no entorno de um quilômetro e pode receber notificações automáticas sugerindo sua visitação. Além disso, a plataforma disponibiliza dados complementares como o tipo de proteção, horários de funcionamento e contatos. Os usuários podem seguir Roteiros Temáticos, tais como roteiro modernista, roteiro de igrejas ou sítios arqueológicos, ou ainda fazer seu próprio roteiro, tornando o aplicativo um guia completo.
O Aplicativo Portal do Patrimônio faz parte da estratégia piloto de construção do Sistema Nacional do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro e encontra-se disponível para download gratuito nas lojas virtuais das plataformas Android (GooglePlay) e IOS (AppStore). Coordenada pelo Iphan-RJ, a elaboração do software contou com o patrocínio na Companhia Imobiliária Metropolitana - CIM.



Referências Bibliográficas:                                         
http://migre.me/pHVi4
http://migre.me/pHVjU

Aleijadinho 3D

A produção de imagens tridimensionais para a digitalização de obras arquitetônicas vem sendo colocada em pauta desde meados dos anos 2000 como um método mais seguro de estudo e auxílio na preservação do patrimônio arquitetônico. Um exemplo deste tipo de estudo aconteceu em 2013 no projeto “Aleijadinho 3D”, realizado pela USP, com a digitalização de algumas obras do escultor Aleijadinho. Dentre as obras estudadas, três estão situadas na cidade de Ouro Preto: as igrejas da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia.


O início da digitalização ocorre com o escaneamento das formas de uma obra, que é feito com aparelhos especiais que analisam o objeto e produzem a partir de vários ângulos diferentes arquivos chamados de malha de pontos, que quando combinados correspondem a superfície do objeto. O processo de obtenção dessa superfície através desse método é chamado de triangulação.


Posterior ao escaneamento e a triangulação são realizados os tratamentos das imagens tridimensionais com o uso dos softwares Meshlab e Blender. Nestes softwares foram realizadas a coloração do objeto, a retirada de elementos sem prejuízo do desenho (amostragem), o tratamento de luz e sombras e a montagem dos elementos.  
O resultado do estudo pode ser encontrado no site http://migre.me/pHXaF onde estão disponíveis mais informações, além de imagens, vídeos e uma navegação interativa em 3D pelas obras do artista Aleijadinho.

The 500

Fundado em 2003, o CyArk é uma organização sem fins-lucrativos que trata da perservação do patrimônio arquitetônico e arqueológico mundial. O objetivo desse grupo é a disseminação gratuita dos arquivos obtidos através do uso de tecnologias que envolvem o escaneamento e processamento de imagens em 3D.
Uma de suas metas principais é o projeto The 500, cuja proposta é a digitalização de 500 sítios históricos pelo mundo inteiro. Com um total de quarenta projetos já concluídos, a biblioteca de arquivos do site contém vídeos, desenhos, 3D point clouds (arquivo de processamento em 2D/3D) e modelos digitais dos locais.



A principal mídia trabalhada no processo de digitalização são os arquivos 3D point clouds que correspondem ao pontos que compõe determinado objeto. A partir da obtenção desse tipo arquivo com o uso de escaneamento 3D é gerada uma malha de pontos. Essa malha é ligada com o processo de triangulação, onde os pontos são ligados para compor a superfície sólida do objeto, que então é finalizada com o processamento de imagens e disponilizada na página do CyArk.


Há uma área do site com informações sobre como proceder para a indicação, seja por uma comunidade ou autoridades, de sítios históricos a serem avaliados para inclusão no projeto.

A lista de projetos concluídos pode ser encontrada no link: <http://www.cyark.org/projects/>.

O patrimônio x a desmaterialização dos sistemas informáticos

Nosso tempo é de crescentes e velozes mudanças. Transformações que demoravam gerações ou décadas ocorrem em poucos meses ou dias. Graças às novas tecnologias e mídias, as informações e os conteúdos circulam instantaneamente. Cada vez mais a economia e a política se entrelaçam e se tornam globalizadas, onde fatos e decisões que nos afetam ocorrem a milhares de quilômetros. A cultura faz parte desse processo de globalização e tende a perder, como a economia, suas características nacionais, regionais e locais, se as manifestações autênticas e genuínas não forem protegidas e incentivadas.

Mas afinal, a tecnologia e seus suportes podem potencializar a conservação? Ou a tecnologia e mídias digitais graças à estética de desaparecimento e a reprodutibilidade técnica prejudicam, de alguma forma, os processos de conservação do patrimônio?

A conservação patrimonial através dos sistemas informáticos como a Web ainda é um campo aberto à exploração. As alterações que as técnicas digitais estabelecem, tal qual a capacidade de medir o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, o espaço descontínuo e heterogêneo, o pixel como elemento básico da imagem eletrônica e a impermanência desta imagem proporcionam um alto grau de liberdade da exploração do imaginário.  Tais mudanças foram grandes revoluções cientificas que vieram acompanhadas de hipóteses sobre seu impacto na produção e preservação cultural.  Hipóteses como o congelamento de tradições e culturas em universos virtuais ou da desmaterialização do patrimônio (antimonumentos) são algumas das visões pessimistas sobre influencia da tecnologia.

Para analisarmos o impacto da tecnologia nas questões patrimoniais podemos pensar no patrimônio como uma obra de arte, a qual o filósofo alemão, Benjamin, expõe que devemos analisar três valores: o de culto, o de exposição e o de eternidade. Analisando o impacto da tecnologia nestes valores temos a manutenção do valor de culto, potencialização do valor de exposição e renuncia do valor de eternidade. O valor de culto se mantem, pois o atrativo e o êxtase da contemplação devido às sensações ou simulação de sensações permanecem, porém não em mesmo grau. Já o valor de exposição é potencializado, pois devido às mídias e a reprodutibilidade técnica a difusão imagética torna-se intensa e veloz. Contudo, o valor de eternidade é “renunciado” devido à impermanencia da imagem na qual a imagem é somente retiniana e não mais associada a um suporte físico e sofre constantes modificações.

A partir de tal análise temos que a difusão da conservação do patrimônio pelos meios informáticos é positiivo uma vez que sua exposição é potencializada e o valor de eternidade não desaparece com sua reprodutibilidade. Assim como, por exemplo, a arquitetura necessita de sua fruição física, o valor de culto se mantem nos sistemas informáticos porém não sendo capaz de proporcionar as mesmas sensações que o contato com bem físico. Sendo assim apesar de ser reproduzido e disseminado em alguma mídia isto não interfere na curiosidade em conhecer o patrimônio em si, fisicamente. Pelo contrário, é cada vez mais comum os museus disponibilizarem em seus sites tours interativos, mas que de modo algum substituem o contato real com as obras expostas.


Bibliografia:
Artigo - “Os monunmentos e a sua reprodutibilidade: mídias e valores” ; Eliane Lordello e Norma Lacerda; publicado na revista Risco
Artigo - “O desejo da desmaterialização da arquitetura: a plasticidade como pocesso”; Marcela Alves de Almeida; publicado na revista Risco

Para ler e pensar...

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Turismo digital

Simulações digitais são mais constantes a cada dia, inclusive no que se refere a patrimônios arquitetônicos. Apesar de não proporcionar a intensidade sensitiva da experimentação real, a imersão virtual traz à tona vantagens e possibilidades que não são alcançadas com tamanha eficiência quando se vivencia fisicamente o espaço. Detalhes que passariam despercebidos devido à distância podem ser observados de perto; informações semânticas relevantes ou mesmo curiosidades são obtidas em poucos e selecionados cliques.

Os passeios são simultaneamente espaciais e temporais, mais instrutivos à medida que se integram imagens e palavras. Isso, além do denso saber que fornece ao visitante, é também auxílio na preservação da edificação real. O conhecimento gera sensação de certo pertencimento àquele contexto e, assim, as pessoas preocupam-se mais com sua conservação – o que muitas vezes se explicita através da divulgação de informações que dizem respeito ao mesmo. 

Ampliando a percepção sobre o assunto, ressalta-se sua importância quanto à catalogação de edifícios significativos para a história – seja em termos locais ou mundiais. O registro tanto armazena dados de memória quanto melhora condições para a reconstrução ou mesmo restauração de arquiteturas patrimoniais.

De sites próprios a Google Maps, uma lista de interessantes e bastante distintos museus virtuais para se conhecer:


Sobre arte e outros mais:

Teatro-Museu Dalí (http://www.salvador-dali.org/)
Museu Sem Fronteiras (http://www.museumwnf.org/)

"Trompe l’oiel" do século XXI

A anamorfose é uma técnica de distorção que faz uso de perspectiva linear e efeitos de sombra para atingir seu objetivo fundamental: transformar uma imagem bidimensional em tridimensional através de ilusões ópticas. O trompe l’oiel sistematizado no fim do século XV para teatralizar o Barroco é atualmente utilizado por diversos artistas com variados propósitos e meios de fazê-lo.


No contexto de preservação arquitetônica patrimonial, o desenvolvimento da anamorfose se dá mais especificamente através de desenho computacional. Este possibilita maior dinamismo e composições gráficas mais complexas para a representação realista de construções históricas. Pode-se, a partir disso, explorar os efeitos da escala 3D nas percepções das pessoas que os observam – como, aliás, fizeram estudantes no RS, em 2009.

O trabalho foi realizado em Pelotas, focando-se no Grande Hotel (1928) da cidade. Sua cúpula de bronze foi modelada no programa 3D Max, inserida no espaço urbano e, então, estudada para edição no Photoshop. O resultado foi impresso em adesivo e colocado na praça em frente à construção real, para que, assim, os transeuntes pudessem visualizar representação e cúpula simultaneamente.


Estudo de representação a partir de perspectiva.

De início, a atenção voltava-se apenas para a marca estética no piso; logo, vinha a interação dos visitantes com a mesma. Naturalmente, seus olhares eram direcionados ao Grande Hotel e a detalhes que antes nem mesmo eram percebidos.  O projeto foi tão bem recebido que ganhou página virtual: http://brodarq.wix.com/posgd_grandehotel#!__menu. Nela, há diversas fotos de momentos interativos, bem como esclarecimentos e curiosidades acerca do que foi feito.

E quanto à técnica da anamorfose, algumas inspirações:

Regina Silveira (http://reginasilveira.com/)